segunda-feira, 26 de abril de 2010

Participação na I Jornada de Crítica Genética: El Análisis De Procesos Creativos En Artes Escénicas, em Tandil - Argentina

Depois de muito tempo sem postar nada venho aqui comentar um pouco sobre minha experiência na I Jornada de Crítica Genética: El Análisis De Procesos Creativos En Artes Escénicas, promovida pelo C.I.D: Centro de Investigaciones Dramáticas, Facultad de Arte. Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires e IPROCAE: Proyecto Investigación de Procesos Creativos en Artes Escénicas, na cidade de Tandil, nos dias 16 e 17 de Abril de 2010.

Primeiro que a cidade é muito aconchegante, segundo que a equipe organizadora foi muito receptiva com todos nós, brasileiros ou não.

Dentro deste evento tivemos várias apresentações de trabalhos vinculados à crítica genética (ramo inicialmente vinculado à literatura e crítica literária) e aos processos criativos para montagem de espetáculos.

Meu material inscrito foi justamente sobre o processo de criação e execução do espetáculo VOO AO SOLO, com direito à apresentação (pelo menos na tentativa) em espanhol.

Eis o material apresentado, na versão em português:


A Formação/informação e vivências cotidianas
na construção dramatúrgica e estética do monólogo “Voo ao Solo”


Daniela Beny Polito Moraes
Atriz, dramaturga, pesquisadora em dramaturgia, graduanda em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Alagoas.


Palavras-chave: Pós-dramático, vivência e estética.


Inicialmente para analisarmos o processo de criação dramatúrgica e estética do espetáculo (monólogo) Voo ao Solo, precisamos contextualizar a inquietação para o nascimento deste espetáculo.

A dramaturgia foi elaborada tomando como ponto de partida três contos escritos por Daniela Beny durante sua residência artística em São Paulo por oito meses. Estes contos a princípio foram escritos sem nenhuma pretensão de publicação ou montagem, sendo meramente um apanhado de impressões sobre o choque cultural e o sentimento de desamparo. É importante salientar que a vivência cotidiana foi o foco desta primeira escrita, uma vez que a dramaturga/atriz estava “deslocada” (tanto geográfica como emocionalmente) de sua zona de conforto – sua cidade natal, Maceió – para o total desconforto. Porém não devemos tratar esse “desconforto” como algo negativo, pois a partir desta vivência é que pudemos chegar à obra “final”, o próprio espetáculo.

Num dos trechos do texto, a dramaturga relata: “Me sentia uma estrangeira, na verdade me sentia uma exilada, não pelo lugar onde habitava, mas pelo o que sentia estar habitando dentro de mim [...] me sentia completamente deslocada naquele lugar, no lugar que escolhi para ser meu.”, o que evidencia o impacto do deslocamento geográfico e do choque cultural tomando dimensões que extrapolavam os pensamentos da dramaturga.

Com os três contos em mãos chegou o momento de transforma-lo em um texto dramático e em processo colaborativo com Marco Antonio de Campos (encenador do espetáculo) chegamos a possibilidade de mesclar vivências recentes em São Paulo com influências literárias regionais e outros elementos que fizessem parte da formação (tanto acadêmica quanto artística) da dramaturga.

Após buscarmos fundamento nas obras de Nelson Rodrigues, Garcia Lorca e Shakespeare, chegamos a dois autores brasileiros, que, por acaso, nunca escreveram nenhum texto teatral. Lygia Fagundes Teles nos “emprestou” o conto Tigrela (que aborda um possível relacionamento homossexual de extrema dependência emocional entre uma mulher e sua tigresa de estimação) e Guimarães Rosa com o conto A Menina de Lá (com linguagem descritiva e regionalista aborda o messianismo para uma menina morta que tinha o dom de realizar o que desejava).

Neste ponto tínhamos as vivências e as influências compondo uma criação fundamentada no pós-dramático, precisávamos organizá-las de forma coerente apesar da diversidade temática, sendo assim pusemos o mítico feminino na espinha dorsal do texto, de onde sairiam várias ramificações, e cada uma delas estaria apta a propiciar diferentes sensações no público.

Tínhamos em cena uma mulher contemporânea – porém atemporal – transitando pela sua própria vida, mas sem seguir necessariamente uma cronologia, desenvolvendo as cenas da seguinte maneira:

1º espisódio: Ela recorda sua infância.
2º espisódio: Ela vivencia sua infância (apoiada no conto A Menina de Lá).
3º espisódio: Ela resgata seus amores.
4º espisódio: Ela resgata seus amigos.
5º espisódio: Ela mergulha no universo subconsciente (apoiada em preceitos freudianos) e discute sobre seus sonhos e pesadelos.
6º espisódio: Ela revela as “tentações” da dissimulação e efemeridades passionais.
7º espisódio: Ela recorda/vivencia o ápice da passionalidade e as relações doentias de dependência (apoiada no conto Tigrela).
8º espisódio: Ela se coloca como mercadoria, banalizando afetos e sensações.
9º espisódio: Ela recorda/vivencia o choque cultural.
10º espisódio: Ela regressa ao ponto de partida.

Esta trajetória já nos leva a comparação com o mito do herói grego que, deslocado de seu espaço, passa pela provação, reconhecimento e, por fim, redenção.

Justamente pela não-linearidade, buscamos uma estética que sugerisse um tom onírico à encenação, pois não contaríamos com cenografia, apenas com adereços como: chapéus de diferentes modelos, um guarda-chuva, uma maleta, uma caixinha de maquiagem e um lenço, todos vermelhos, o que, dependendo da cena, atribuía aos objetos características específicas côo desejo, medo, prazer ou estagnação, sendo estes os terminais nervosos da espinha dorsal.

Após vários testes, Arnaldo Ferju, designer de luz, criou uma iluminação cênica com corredores horizontais, refletores posicionados de modo a criar ilusões ópticas no palco, sugerindo níveis e angulações diferentes. A simetria e enquadramentos faziam com que cada cena, em conjunto com os objetos, já criassem atmosferas específicas em cada momento. Considero importante salientar que Ferju não é apenas iluminador, também é ator, sendo assim, consideramos que a execução da luz no espetáculo é um diálogo entre atriz e iluminador, apesar de se tratar de um monólogo.

O maior desafio deste processo foi a disponibilidade para se expor, uma vez que em cena não estava apenas a atriz, mas também a dramaturga, o que gerava uma dupla sensação de desnudamento, pois buscamos esclarecer sempre que tratava-se de um trabalho autoral, que, embora possua fragmentos de outras obras e conte com a colaboração de um encenador, tinha se proposto a ser autônomo e mutável, pois até hoje não o consideramos uma obra fechada.

A atriz busca no figurino preto a neutralidade, embora fuja da criação de uma personagem propriamente dita, ficando no pequeno espaço entre a atriz, a persona e a personagem, propondo em cena o mesmo desconforto experimentado na realidade.

A influência do cotidiano está justamente na possibilidade dae identificação do público com o texto, as características da sociedade moderna e seus conflitos se personificam, e isso acaba sendo inteligível para qualquer público que partilhe da cultura de uma sociedade de consumo. Neste breve instante de “representação” talvez o mais subjetivo em cena acabe provocando as reações mais objetivas na platéia, fazendo com que comunguem de um estado semelhante, mesmo que tenham sensações diferentes.

Cito Peter Brook, quando o mesmo diz: “O aspecto da realidade que cada ator está evocando deve despertar uma reação na mesma área em cada espectador, fazendo com que, por um momento, o público viva uma impressão coletiva.”, e essa impressão só é possível de se compartilhar pela experiência cotidiana, pois, mesmo que de modo diferenciado, todos já tiveram que lidar com perdas, alegrias, provações, mudanças e tristezas.

Atualmente estamos buscando a reconstrução do espetáculo, afinal passamos por constantes transformações após vivenciarmos uma infinidade de experiências, o que colabora para a resignificação e outras formas de relacionamento tanto com objetos de cena quanto com o próprio texto. Não ignoramos em hipótese alguma a possibilidade de suprimirmos algumas cenas, reescrevê-la ou apenas deslocá-la dentro da montagem.

Neste processo concluímos que, em hipótese alguma, podemos esquecer que o que nos transforma como seres humanos influencia diretamente o que criamos e recriamos como artistas. Se o dramaturgo é visto cronista de seu tempo, ele eterniza sua época nos textos, então ele também eterniza sua formação, embora o teatro seja efêmero.


Referencias Bibliograficas


BENTLEY, Eric. O dramaturgo como pensador. Trad. Ana Zelma Campos. Ed.: Civilização Brasileira, Rio de Janeiro:, 1991.

BOOK, Peter; A Porta Aberta – Reflexões sobre a interpretação e o teatro. Trad. Antonio Mercado. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 2008.

LEHMANN, Hans-Thies. Teatro Pós-Dramático. Trad. Pedro Süssekind. Ed.: Cosac&Naify Edições, São Paulo: 2007.

SZONDI, Peter; Teoria do drama moderno: 1880-1950. Trad. Luiz Sérgio Rêpa. Ed.: Casac&Naify Edições, São Paulo: 2001.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

I Livre Conferência de Teatro

Há três anos os Grupos de Teatro de Alagoas se reúnem em um dia de dezembro para fazer o Chá da Tarde, ação proposta pela Cia do Chapéu e que a cada ano ganha mais parceiros e apoiadores, constituindo um momento de balanço anual da produção cênica alagoana. Comparado as edições anteriores, o último Chá obteve o maior número de participantes, onde debatemos assuntos pertinentes a quem desenvolve atividades culturais em nosso Estado.

Assim um dia ficou pouco para se falar tantos assuntos e estabelecer continuidade as questões levantadas. De dezembro do ano passado até agora foram realizadas reuniões sistemáticas entre os grupos, no intuito de mobilizar a classe e ter mais representação da categoria junto ao Ministério da Cultural, Secretaria de Estado da Cultura e prefeituras.

Nesse percurso a Livre Conferência de Teatro foi se definindo, com temas ligados a órgão públicos e também visando a união de forças para quem sabe num futuro próximo constituir uma Cooperativa de Teatro em Alagoas, estrutura já utilizada em outros Estados.

O objetivo é criar laços e mobilizar a classe artística alagoana, sendo um espaço de diálogos entre os que desenvolvem ações culturais, para que possamos pensar e agir principalmente sobre os aspectos de Desenvolvimento e Sustentabilidade do Teatro de Grupo em Alagoas, tema principal da I Livre Conferência de Teatro.

No dia 27 de março de 2010 (Dia Mundial de Teatro) foi realizado o ato IML – Isolamento Maceió Limitada, para tornar público a nossa opinião sobre as atuais políticas públicas de fomento a cultura. Contamos com o apoio dos artistas de audiovisual, que se tornaram nossos parceiros por compartilharem da mesma opinião e já confirmaram presença na conferência.

Segundo o Ministério da Cultura as Conferências Livres foram criadas para ampliar a participação dos diversos agentes culturais na Conferência Nacional de Cultura, um importante espaço de mobilização de grupos, entidades e participantes para as Conferências Estaduais, bem como de continuidade, aprofundamento e ampliação de suas discussões.

Todos são bem vindos para estabelecerem diálogos, os Órgãos Públicos já foram convidados, o Sindicato dos Artistas e Instituições Culturais. De 14 a 17 de abril, no Espaço Cultural da Ufal contamos com a participação do maior número possível de artistas. Toda programação é gratuita.


PROGRAMAÇÃO:

Quarta (14/04):

18h00 - Credenciamento

19h30 - Abertura

20h00 - Programação Cultural: Espetaculo Women´S - Grupo (E)xperiência/Subterranea(SC)


Quinta (15/04):

14h00 - Demonstração de trabalho técnico "Corpo, risco e interpretação por estados" com o Grupo (E)xperiência/Subterranea (SC)

17h00 - Palestra "Teatro de grupo e processos criativos" com André Carreira (SC)

18h00 - Intervalo

18h30 - Painel: “II Conferência Nacional de Cultura/2010” com Udson Pinheiro (LATO) e Rogério Dias (Quintal cultural).

20h00 - Programação Cultural: Espetaculo Women´S - Grupo (E)xperiência/Subterranea(SC)


Sexta (16/04):

14h00 - Mesa Redonda: “Nossas Identidades” com Elizandra Lucca (REKA Cia de Teatro) e Ronaldo de Andrade (ATA)  Moderação: Mary Vaz

15h30 - Mesa Redonda: “Políticas Públicas para Teatro” com representantes das esferas: Estadual e Municipal; Robertson Costa (Cia. da Meia Noite). Moderação Charlene Saad

17h30 - Intervalo

18h00 - Programação Cultural: Ensaio aberto do espetáculo AMARRADOS - Trupe BundaCanastra (AL)

19h00 - Mesa Redonda: “SATED/AL” com José Vieira (Presidente do Sindicato) e Elida Miranda (CUT-AL).  Moderação: David Farias

20h00 - Mesa Redonda: “Espaços de apresentações e ensaios” com representantes da Secult/AL, da FMAC, do SESC/AL, do SESI/AL e da UFAL. Moderação: Jonathan Albuquerque


Sábado (17/04):

09h00 - Open Space (Discussão de temáticas diversas).

11h00 – “Proposta de Festival Local dos Grupos envolvidos na Conferência”. Moderação: Tácia Albuquerque

12h30 – Intervalo para almoço

14h00 - Plenária Final  Moderação: Lais Lira


PARA MAIORES INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES ACESSEM: http://www.conferenciadeteatroal.blogspot.com/

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sobre a II Mostra de Teatro SESI

Ufa, demorei para postar alguma coisa sobre a Mostra porque essa última semana foi muito movimentada. Em linhas gerais o evento foi muito importante para a interação entre os grupos e pela abertura do diálogo entre os artistas, em compensação, senti uma certa dificildade na organização de iluminação e na impossibilidade de alguns grupos ensaiarem.

Enfim, estamos de parabéns pela assiduidade no evento e parabenizamos também o SESI - na figura de Jorge Adriani - por esta iniciativa.

Que venham muitas outras mostras!

2014 - um ano de muita pesquisa

Então, desde o final de 2014 o tempo tem sido cada vez mais escasso apenas pelo fator MESTRADO, tão raro que, ao vir atualizar o blog me de...